Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

Carta aberta ao Exmo. Governador do MS, Sr. Zeca do PT!

Carta aberta ao Excelentíssimo Senhor José Orcírio Miranda dos Santos
DD. Governador do Estado do Mato Grosso do Sul

EM DEFESA DA COMPANHEIRA MARINA SILVA!

Senhor Governador:
Desde a morte trágica do Franselmo vinha pensando seriamente em escrever-lhe, para manifestar meu protesto pela forma como Vossa Excelência e seu Governo tratam a questão do meio ambiente e, mais especialmente, do Pantanal. Ontem mesmo escrevi um e-mail ao meu amigo Semy Ferraz, onde disse que tinha vontade de escrever a Vossa Excelência, em face dos últimos acontecimentos.

Antes de ir adiante, para lembrá-lo, pois talvez de mim não se recorde, algumas informações pessoais: sou matogrossense do sul, nasci em Caracol (antiga "Porteira"), estudei as primeiras séries da escola em Bela Vista e criei-me em Bonito, onde concluí o ensino fundamental (até a 8ª série), e onde meus pais residem até hoje. Formei-me em Agronomia em Dourados e graças ao fato de ter sido, formando "dobradinha" com Vossa Excelência, candidato a deputado federal pelo PT em 1982, ano em que concluí o Curso de Agronomia, não consegui emprego como agrônomo nos órgãos estaduais, pois o PMDB ganhara a disputa... Todos os meus colegas de turma que quiseram saíram empregados em órgãos públicos (EMPAER e IAGRO especialmente).

Como não havia emprego para mim no MS, mudei-me para o Acre, onde moro desde 1983. Trabalhei pouco tempo como "funcionário público".

De 1986 a 1988 trabalhei com Chico Mendes, em Xapuri, onde continuei até
1992, trabalhando com os companheiros seringueiros, saindo de lá para cursar Direito na UFAC. Hoje moro em Rio Branco, onde faço parte de um escritório de advocacia.
Terminada a minha pequena "apresentação", para que não pairem dúvidas de que sou matogrossense do sul, com orgulho, e que "conheço o Pantanal", pois como estudante de Agronomia em Dourados , coordenei, entre os estudantes de Agronomia da região Centro-Oeste (Dourados, Cuiabá, Goiânia e Brasília), à época, o movimento contra a instalação de usinas de álcool no Pantanal, sendo parte do mesmo movimento que gerou a legislação ainda em vigor que proíbe ditos "empreendimentos", gostaria de dizer-lhe Excelência que, ontem à noite, após assistir à entrevista sua a um telejornal de grande audiência a nível nacional, acho que tenho a obrigação de escrever-lhe, embora eu não tenha procuração para "defender" a Ministra Marina Silva, até porque ela, por sua própria história, não precisa de "defensor", mas não posso ficar calado frente a uma agressão perpetrada contra uma amiga, uma grande companheira de luta!
Pretendo manifestar-me contra a total falta de urbanidade e a forma desrespeitosa com que Vossa Excelência dirigiu-se à Ministra Marina Silva simplesmente porque ela defende um modelo de desenvolvimento PREOCUPADO COM O MEIO AMBIENTE, o que NÃO É O SEU CASO!

Vossa Excelência disse que a Ministra Marina Silva tem uma "visão amazônica" do meio ambiente e que "não conhece o Pantanal".

Pois bem, Excelência, quem parece nada conhecer sobre meio ambiente é Vossa Excelência, pois, ao pensar que há uma dissociação entre os vários ecossistemas que compõem o Brasil e, quiçá, o planeta, mostra profundo desconhecimento na área.

Para começo de conversa, Excelência, a Amazônia é tão importante para o Pantanal como este o é para aquela. São ecossistemas interdependentes. As secas na Amazônia repercutirão diretamente no Pantanal, da mesma forma como a "morte" do Pantanal alterará de forma brutal o clima na Amazônia, levando-a, possivelmente à morte. Esse mesmo raciocínio vale para o cerrado, para a caatinga, para a mata atlântica, para os manguezais etc.

De mais a mais, quem parece desconhecer o Pantanal é Vossa Excelência, o que considero inadmissível para um murtinhense de boa cepa.

Vossa Excelência sabe por que os rios Taquari e Verde estão assoreados e morrendo lentamente? Porque, por falta de cuidado com a região do planalto, onde está o cerrado matogrossense do sul, com a introdução da monocultura da soja, houve a remoção da vegetação das cabeceiras de vários rios formadores do Pantanal, entre eles o Taquari e o Verde, bem como o São Lourenço. Esses rios estão "morrendo" aos poucos, graças ao "progresso" e "desenvolvimento" da monocultura sojífera.

Ontem li em um "site" daí do Mato Grosso do Sul que o seu Secretário de "Produção e Turismo" falou que a Ministra Marina Silva não conhece o projeto das "usinas de álcool", pois, segundo ele, estas não seriam construídas dentro do Pantanal, mas sim na região do "alto Paraguai", ou seja, fora, no "entorno" do Pantanal. Se eu fosse Governador do Mato Grosso do Sul, chamaria o tal Secretário - parece que o nome dele é Dagoberto - e perguntaria: "- você fez tal declaração?" Se ele respondesse que sim, eu o demitiria sumariamente, a bem do serviço público, pois alguém que trata da "produção" e, especialmente, do "turismo", não entender que os rios do alto Paraguai têm suas águas, todas, carreadas para o Pantanal não serve para ser secretário de nada...

Ora, Excelência, qualquer acidente ecológico que acontecesse em qualquer usina instalada "fora do Pantanal", mas na "bacia do rio Paraguai" atingiria, diretamente, o Pantanal, não importa se a usina estivesse dentro ou "fora" da região pantaneira, aliás, quanto mais no planalto estivesse, mais rápido seria a "descida das águas" para o Pantanal, afinal de contas, como diz o ditado popular "fogo de morro acima e água de morro abaixo, NINGUÉM SEGURA!".

Quando Vossa Excelência diz que a Ministra Marina Silva deveria ter "economizado o dinheiro da passagem", devolvo, acho que o povo do Mato Grosso do Sul deveria estar ECONOMIZANDO O SALÁRIO QUE LHE PAGAM PARA (des)GOVERNAR O ESTADO!

Outra questão importante a ser posta diz respeito ao pretenso desenvolvimento" e "geração de em pregos" que as ditas usinas de álcool gerariam... Estou longe do MS há 22 anos, mas tenho acompanhado sempre as notícias daí. Pelo que já li, as usinas de álcool da região de Rio Brilhante e Nova Alvorada do Sul até muito recentemente foram notícias envolvendo "trabalho escravo", inclusive de indígenas. Os tais "empregos", na verdade, não valem o risco que se coloca para todo o Estado do MS.

Por último, Excelência, quero dizer que entendo que a morte do Franselmo deve ser DEBITADA NA SUA CONTA POLÍTICA, o que torna o seu possível saldo ALTAMENTE DEVEDOR... Como ex-bancário que é, Vossa Excelência deve saber que saldo devedor, se não pago, só aumenta... E no ano que vem haverá eleições... E, pelo que sei, Vossa Excelência é candidato a Senador... A alma de Franselmo estará cobrando-o a cada dia de seu governo ... e de sua candidatura.

Ah! Em tempo: por que será que é necessário um "Programa Pantanal"? Porque durante décadas ele vem sendo agredido, destruído por aqueles que "est ão fora", no planalto do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul... Ou seja, primeiro destroem, depois dizem que "precisam de dinheiro" para "recuperar" o que conscientemente foi destruído por um modelo de desenvolvimento que prioriza a MONOCULTURA, a devastação, portanto, um modelo INSUSTENTÁVEL!

Atenciosamente,

Gomercindo Clovis Garcia Rodrigues ("Guma")
RG 052.244 SSP/MT emit: 12/04/1977
CPF 176.808.321-53
OAB/AC 1.997